Entre risos e partidas
Alguns dias não chegam com alarde, mas, quando acontecem, preenchem a casa e o corpo de um jeito difícil de explicar.
Estar com quem amamos tem disso: não é só o encontro.
É o que ele desperta em nós enquanto acontece… e o que começa a doer, silenciosamente, quando percebemos que vai terminar.
Estive assim esses dias.
Cercada.
Viva.
Inteira dentro de um momento que eu sabia, desde o início, que não poderia ficar.
E, ainda assim, fiquei.
Há uma casa cheia de vozes e, por alguns instantes, o mundo cabe inteiro dentro dela.
Meus netos riem com aquele riso que não pede licença,que não sabe do tempo, que não teme o fim do dia.
E eu fico ali… não inteira de mim, mas inteira deles.
Há braços que me atravessam, pequenos, apressados, quentes.
Há olhares que me reconhecem sem precisar entender.
E, no meio de tudo isso, eu esqueço que a vida também é partida.
Mas ela é.
E, silenciosamente, enquanto ainda estamos juntos, algo em mim já começa a se despedir.
Não com pressa, não com ruptura, mas com aquele cuidado de quem sabe que o que é precioso não se arranca: se guarda.
Vou embora hoje à noite.
Mas não levo malas cheias… levo ecos.
O som das risadas ainda soltas no ar, o movimento da casa viva, o calor de estar onde pertenço.
Levo o que não pesa e, ainda assim, transborda.
Porque há encontros que não terminam quando acabam.
Eles continuam dentro da gente, como uma luz acesa em algum cômodo da memória onde sempre é possível voltar.
E talvez seja isso o amor quando amadurece: não a ausência que esvazia, mas a presença que permanece mesmo depois da despedida.
Depois que a casa silencia, fica em nós o que não coube nas malas.
Fica o riso que ainda ecoa, o abraço que não terminou direito, o instante que, sem pedir, se fez eterno.
Ir embora, às vezes, é só outra forma de amar, levando consigo tudo aquilo que fez doer partir.
E, dentro da gente, a vida segue: não como antes, mas como quem guarda um pouco mais de luz para o caminho. 🌿
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Adriana Cohn 💞


